A Morte do Pai – Karl Ove Knåusgard

Knausgård é um fenômeno mundial. Traduzido em mais de 20 idiomas e já contando com cerca de seis milhões de livros vendidos, já entrou para o panteão de escritores comercialmente consagrados no século XXI. É necessário, contudo, deixar claro que a mais relevante medida de seu estrondoso sucesso não pode ser o (impressionante) volume de vendas dos números de sua autobiografia. Antes é um estranho indicativo da peculiaridade da obra.

Seu projeto literário, sobre o qual o autor fala brevemente no início do primeiro volume “A Morte do Pai”, é de fato um projeto, talvez no sentido mais bastardo do termo tal como entendido atualmente. Foi desenhado e desenvolvido pelo autor, e é frequentemente referenciado ao longo das narrativas, posto que seja parte da própria vida do autor. Nada de fúria criativa ou de inspiração das musas: os livros são construídos laboriosamente, muitas vezes conflituosamente, e a carreira de escritor é vista como atividade principal, não acessória ou paralela. Knausgård escreve para ganhar a vida, e, após tornar-se best-seller provavelmente ganha a vida muito bem.

A (À) sombra de Proust

Não há madeleines em A Morte do Pai. No primeiro volume da série de Knausgård há abundância de referências a estímulos sensoriais que despertam emoções e memórias narrativas dormentes e que irão ditar o fluxo do texto até a próxima interrupção abrupta, ou até o próximo estímulo se sobrepor, atando as duas pontas de uma história e dando coesão ao livro, tornando o conceito de livro de memórias sobremaneira mais elástico: trata-se, de fato, de memórias, colecionadas, justapostas e ordenadas. Caica e efetivamente ordenadas.

Voltemos às madeleines: as de Knausgård são, quando muito, os sanduíches de sardinha preparados por seu pai, engolidos apressadamente, ajudado por copos de leite, posto que o autor/narrador as detesta. Na sequência se descortina uma pequena cena familiar, em que o filho descreve a sensação de segurança que a figura materna trazia ao chegar em casa, em contraposição à sensação de tensão e busca de validação que a figura paterna então desperta no filho.

E assim segue a construção do primeiro volume de memórias da série Minha Luta. Sem em nenhum momento propor uma estrutura narrativa rígida ou fluída, o autor atinge o intento de construir a primeira parte da obra e sem exigir de seus leitores maiores esforços, narrando sua infância tardia e adolescência em uma sucessão de fatos banais e episódicos, entremeados por esparsas observações sobre pessoas ou fatos gerais que serão relevantes naquele momento ou mais tarde no livro. A estranha digressão sobre a morte que abre o livro se encaixa nessa proposta, muito embora seu completo sentido só possa ser totalmente captado bem mais tarde.

Como o próprio título sugere, o fato mais relevante, a causus belli do livro, por assim dizer, é a figura paterna, que, paradoxalmente, tem em sua morte o momento menos relevante na (não) trama. A própria dimensão da imensa figura ausente do pai só se desvela aos poucos, por meio da interação do autor/narrador com outros personagens/parentes que surgem e ressurgem a partir dos episódios burocráticos que se seguem à morte.

É preciso resistir à tentação barata de qualificar a relação entre ambos sob qualquer título que sugira conflito ou ausência. A figura paterna está presente e é ponto determinante (embora de forma progressiva) nas ações e inações do autor/narrador, mas se o próprio filho se furta ao julgamento e qualificações supersimplificafores, seria pretensão do leitor fazê-lo. Muito mais interessante e honesta é a observação do peso que a figura do pai tem sobre seu filho mesmo em sua distância física e temporal.

Como já notado, a narrativa se desenrola em uma colcha de retalhos memorialística, permeada por cenas introduzidas por lembranças extremamente banais, como a de uma festa de fim de ano pré adolescente a ser regada por álcool e todo o plano arquitetado para levar o tolo, e por isso mesmo humaníssimo, projeto a cabo. Por isso mesmo, a colcha é tecida em retalhos cujas cores por vezes se chocam, uma vez que os capítulos, e mesmo cenas, podem ter saltos temporais relevantes, o que pode desnortear mesmo o leitor mais atento e experiente.

Mesmo assim, não se trata de leitura difícil ou complexa sob o ponto de vista prático. O leitor que busca boas narrativas terá em Knausgard uma boa fonte de entretenimento, assim como sairá também satisfeito o leitor que aprecia os aspectos psicológicos das personagens. A única dificuldade comum a todos os leitores será a de sair indiferente à obra: sendo humana, demasiado humana, tem no corriqueiro e trivial narrados com tons sombrios, por vezes sépia, a capacidade de causar em todos algum grau de malaise e reflexão, o que caracteriza a razão de ser da arte.

Quem deve ler

A Morte do Pai talvez seja o melhor livro chato já escrito. Sem uma meta definida além de relatar suas memórias em prol de um projeto literário, Knausgard encontra certa liberdade estrutural na condução do livro, o que torna a narrativa um verdadeiro zigue zague muitas vezes.

Por outro lado, a própria peculiaridade da estrutura é um atrativo. Vemos ali alguém que se desnuda de maneira por vezes incômoda (a descrição do relacionamento com o pai aparece de forma pulverizada ao longo do livro, mas sempre de maneira realisticamente perturbadora). Esta característica pode ser ao mesmo tempo

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