Infância – Graciliano Ramos 

Infância

O fato de ser esta obra de Graciliano Ramos uma das mais lidas, afinal consta na grade dos tais livros obrigatórios para o moribundo vestibular, paradoxalmente não a torna de nenhuma maneira popular ou sequer conhecida.

Livro curto, menos de duzentas páginas, escrito em uma prosa seca, econômica e surpreendentemente bem disposta, com frases e mesmo períodos inteiros de força comparáveis aos melhores momentos de Machado de Assis, difere dos mais escrutinizados textos do autor predileto da academia preguiçosa e dos estudantes que buscam aceitação dos pares por ser a prosa de Graciliano de ação lenta e efeito retardado.

Cada frase de Graciliano em Infância é calibrada, despretensiosa, mas possuidora de um punch literário que talvez só o grande Eça – com técnica diametralmente oposta, diga-se, afinal o grande autor português usa com maestria a adjetivação cadenciada – consegue. Exemplifica bem na obra o abrupto – embora previsível – o desfecho da história de Mocinha.

É livro duríssimo, infeliz, mas não ressentido, quase estóico na narrativa de fatos e atos violentos, de relações humanas superficiais e utilitárias, em um ambiente em que raras vezes há interação mais ou menos amorosa entre as participantes. Exceção feita aqueles por quem o autor demonstra algum carinho, pelo simples fato de não ser por eles maltratado, exemplo de sua primeira professora.
Relações familiares são distantes, marcadas pela instabilidade emocional do pai, homem de vários negócios, premido pela necessidade e marcado pela dureza de um ambiente hostil e pouco afeito a arroubos emocionais. O ambiente externo é seco, empoeirado, estóico em seu economicismo.

Semi-biografia ou total obra de ficção? Trata-se de uma discussão inútil, e que faria sair da órbita a principal qualidade do livro: a capacidade de chocar o leitor, de transportá-lo a um mundo tão distante e chocantemente duro, porém um mundo de ainda ontem, geograficamente próximo, recorte quase origámico de um Brasil profundo, que permanece, está lá, com estrutura e aparência talvez um pouco amaciados pelo tempo.

O texto mostra características que estarão presentes na obra de Graciliano, aflorando em seus mais conhecidos São Bernardo – a dominação de uma figura autoritária, seu clássico Vidas Secas – a crueza na descrição do sofrimento humano de um Brasil que ainda é alheio a muitos -, e a incapacidade do ser diante de forças maiores e quase invisíveis, presentes em Angústia e de forma diferente no igualmente triste e polêmico Memórias do Cárcere.

Certamente pode ser considerado obra de entrada, por assim dizer, por ser narrativa mais curta, de maior acesso em sua linearidade e estreiteza narrativas, que em Angústia, por exemplo, não podem ser apontadas como características. Chamá-la de obra introdutória não seria dimiuir-lhe o peso ou relevância, apenas indicaria que ali há o vislumbre de traços de um escritor brasileiro que em seus melhores momentos poderia ser chamado de Dostoiévski brasileiro.

Comparar-se-ia ao russo em seu interesse pela gente pobre, pela escrutínio da mente do homem médio, pelo estudo das linhas tênues entre a sanidade e a loucura, e pela opressão estatal covarde a que ambos foram submetidos, cada qual em uma ponta diferente da vida. Diferem-se no fato da religiosidade e do interesse filosófico, o que não significa demérito para Graciliano, e pelo fato de ter sido Ramos objeto de uma abjeta censura pós prisão, ao ter seu livro censurado em vários trechos pelo próprio partido por quem nutria simpatias, em um covarde tratamento do dispensado a um dos autores brasileiros que indubitavelmente tem lugar no panteão artístico nacional, atualmente destruído não pelas chamas do descaso, mas pelo fogo brando do morte do interesse pela própria cultura.

Que viva Graciliano, e que Infância torne-se relevante pelo que é, não por uma imposição meramente burocrática.

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