O Pintassilgo – Donna Tartt

Caso estranho de sucesso absoluto de vendas e sucesso relativo com boa parte da crítica especializada, este verdadeiro tijolo – são 728 páginas na tradução brasileira – é uma bizarra tentativa de construção de um Bildungsroman palavrão-conceito da crítica literária que define obras que acompanham a formação de um personagem em sentido amplo através do tempo, com foco no desenvolvimento físico, psicológico e moral -, tendo como exemplos mais famosos e arquetípicos o Vermelho e o Negro de Stendhal e Educação Sentimental de Flaubert, o livro de Tartt acaba por ser um combinado de recursos narrativos apelativos típicos de best-sellers de suspense, com inúmeras torções narrativas e fortes elementos dramáticos, como mortes inesperadas e aparecimentos menos previsíveis ainda. O resultado: um livro altamente legível, de narrativa rápida – verdadeiro “virador de página” –

Vícios e Virtudes

Vícios

Donna Tartt é uma figura afetada. Costuma afirmar em entrevistas que seu processo criativo é laborioso, obscuro, quase doloroso, e por isso teria levado incríveis dez anos para conceber, executar e terminar o livro. Curioso processo, uma vez que se a compararmos a grandes estetas da palavra como Flaubert e mesmo Saramago, cujos processos de escrita são (eram) notoriamente lentos, burilados, quase incapacitantes, era de se esperar uma prosa floreada e vibrante, inovadora e, no mínimo, surpreendente. Nada disso acontece. A escrita de Tartt é refinada, certamente superior à prosa normalmente encontrada em best-sellers de língua inglesa, mas não é nada além disso: elegante.

Elegância em meio a um mar de mediocridade que caracteriza livros que vendem muito não é exatamente difícil de se atingir (é famosa e quase tragicômica a dificuldade da autora da série 50 tons em utilizar o vernáculo; há, inclusive, sites que compilam os deslizes da autora – que, diga-se, não poderia se importar menos com tudo isso ou com precisão gramatical, milionária e bajulada por meio mundo como é). Porém, embora o estilo afetado fique marcado logo nas primeiras páginas, acaba-se por acostumar-se, pois embora peque por ser afetado, dobra o pecado ao ser também repetitivo.

Ainda no rol dos vícios, impossível escapar ao que parece ser um ponto pacífico entre aqueles que amam e que odeiam a obra: sua extensão. Muito embora não seja eu o tipo de leitor que vá se assustar com o tamanho de uma obra, as 728 páginas do romance se mostram excessivas. Não, não se trata de preguiça. Trata-se de deseconomia de Donna Tartt. O livro conta com passagens estranhas e demasiadamente longas, com cenas ricamente detalhadas, porém inúteis ao cubo. A figura do guarda de trânsito em ação nas páginas imediatamente posteriores à explosão é um exemplo taxativo do excesso criativo da autora, ou de seus devaneios descritivos baseados em Deus (ou em algum crítico amigo) sabe o quê. É difícil quantificar tamanha subjetividade quando se fala de prosa necessária ou não, mas é provável que o leitor saia do livro com a impressão de que ao menos duzentas páginas poderiam ter sido economizadas.

Também alguns pecadilhos ligados ao desenvolvimento do enredo, pequenas pontas soltas, são verificáveis pelo leitor mais atento – ou com menos boa vontade em relação à autora. Tartt parece por vezes expremer tantos personagens secundários na trama que alguns somem sem deixar rastro algum e sem que façam a mínima falta, o que significa, talvez, que nem deveriam ter estado lá.

Virtudes

Embora eivado de vícios, que já foram alvo de mais de um crítico e muitas vezes de forma ácida (e que iniciaram o presente texto), o livro contém virtudes inegáveis, e que compensam em parte os deslizes da autora.

Para início de conversa, trata-se uma narrativa instigante, que começa já em um ápice – há umas trinta páginas de anticlímax – narrado de forma talvez meio obscura (a afetação talvez tenha lhe dito que ela poderia se igualar a Dostoiévski ou aos melhores momentos de Hawthorne: sem sucesso) mas que se desenvolve rapidamente para uma linha de acontecimentos que fazem mesmo o leitor mais endurecido (e que aguentou passar pela afetação inicial que dura umas cinquenta páginas) ter empatia pelo personagem principal, Theo. Os fatos são colocados de forma verossímil, com a raison d’être do romance – o roubo do quadro “Goldfinch” – ocupando um lugar apenas lateral na narrativa, o que não chega a ser um defeito.

O surgimento de personagens interessantes, como o restaurador de antiguidades que Theo conhece quase por acaso ao procurar por uma menina que vira pouco antes da explosão, ajuda a dar certo fôlego ao livro, sustentando a narrativa mesmo quando Tartt insiste em abusar da paciência do leitor com descrições aleatórias de fatos irrelevantes (não são muitos, porém são inexplicáveis e sobretudo injustificáveis). De fato, a figura quase paterna que Theo encontra no restaurador e leiloeiro trará à trama seus melhores momentos e será ponto de inflexão algumas vezes.

A autora acerta a mão na liberação gradual de informações sobre a mãe, a forte figura que (aparentemente) irá ser fundamental no romance. Também a figura paterna (que no início parece ser totalmente irrelevante para a história) ganha espaço apenas necessário, até tornar-se fundamental, sem gradações. Funciona bem como elemento surpresa, embora careça um pouco de explicações.

Também é interessante a divisão do romance, que na verdade poderia ser publicado em três partes. O timing de cada divisão parece acertado, seguindo a fórmula – batida, é verdade, porém funcional – da construção de tensão e colocação de cliff-hangers bem definidos e importantes no final de cada parte. Tal divisão também auxilia a marcar as fases de desenvolvimento do personagem principal (afinal a proposta de Tartt é entregar um romance de formação, à la Educação Sentimental de Flaubert ou o Vermelho e o Negro de Stendhal), podendo marcar de forma aproximada o fim da infância, adolescência e início da vida adulta de Theo.

A figura de Hobart, que toma Theo sob seus cuidados, é também ponto forte do livro, assim como sua área de atuação, que vai ganhar relevância na parte final da história. O microuniverso da venda de peças de arte e e itens de antiquário com alto valor monetário e histórico vai prover o amplo pano de fundo para a terceira parte do romance, certamente a mais cheia de surpresas, dramas, e soluções de enredo, digamos, rocambolescas. É onde Tartt decide não ser mais Flaubert ou Faulkner e torna-se quase um Dan Brown de saias (ou terninho, como ela aparenta tanto gostar de usar) e é, pela falta de pretensão e pedância excessivas, a melhor parte do livro, a despeito de alguns pequenos pontos estranhos de enredo e falhas na narrativa. É de longe a melhor parte do livro sendo a mais bem estruturada e a que cativa definitivamente o leitor, que a essa altura já sofreu dois choques narrativos relevantes.

Para quem serve?

O livro vai agradar (quase) todos aqueles que gostem de uma boa história, de uma boa narrativa. O elemento do sumiço da obra de arte dá coesão às três partes do livro (além do título, óbvio) e empresta uma linha tênue ao que seria de outra forma um romance extenso sobre um adolescente órfão de classe média nova iorquino.

Passa longe de ser um romance de uma era, como o classificou um crítico, ou de ser um representante do “novo romance americano” como classificaram outros. A boa penetração da autora nos círculos artísticos de Nova Iorque explica as grandiosas críticas positivas que recebeu e impulsionaram as vendas do livro. Assim como explica também as críticas duríssimas que recebeu. O meio “intelectual” é movido por egos e insuflado por pequenos ódios gratuitos. É sempre bom ter em mente que no caso da crítica artística em geral a crítica faz as vendas, não o contrário. O fenômeno do contágio não pode ser descartado. Basta ver a longa lista de Nobels de Literatura que não resistiram ao tempo e descansam pacificamente em “unvisited tombs” editoriais.

Por outro lado, é certamente leitura agradável, mesmo considerados seus defeitos. O personagem principal desperta empatia, e seu destino ricocheteante vai despertar no mínimo a curiosidade do leitor que sobreviver às falhas. O enredo rocambolesco tem, de fato, algumas situações pouco plausíveis, mas talvez seja essa sua maior força, pois é capaz de segurar o leitor ao livro mesmo nos piores momentos da autora.

O Pintassilgo, sendo um best-seller, deve ser considerado como tal, mas não se assemelha à maioria. Há no livro certo refinamento narrativo e estrutural, até, que mostram que a autora tenta construir ali algo além do básico, e, em muitos momentos consegue. A amizade de Theo com Boris é elemento central do livro, na verdade ponto de virada moral e psicológico, e como tal poderia ter sido mais explorado, porém a autora parece ter escolhido incluir ação no lugar de análise a partir do momento em que o russo aparece no romance, o que claramente dá mais velocidade à custa de profundidade. Tal opção não deixa de ser contraditória ao se considerar o início excessivamente arrastado da obra.

Por fim, a recomendação é de leitura, e a avaliação positiva. Com a ressalva de que, ao criar um misto de tentativa de alta literatura com elementos popularescos, Donna Tartt criou um Frankenstein que funciona, mas que custa um pouco ao leitor.

Dados os elementos do livro, é possível pensar que uma adaptação para o cinema não está descartada: os cortes sempre necessários para se transpor livros para a tela vão ter a vantagem de eliminar muitos dos excessos da obra escrita.

Talvez em seu próximo livro (talvez em 12 anos, se a autora sobreviver ao próprio processo criativo), tenhamos uma obra-prima irretocável. A de agora é boa. E ponto final.

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