Um Jogador: Dostoiévski 

Indefinível: talvez seja essa a definição que se mostre mais adequada ao “Jogador” de Dostoiévski.

Indefinível pois trata-se de livro bastante controverso quanto às atribuições que lhe são imputadas, havendo quem o classifique como autobiográfico, tanto quanto quem o coloque no campo de obra com viés relativamente irônico, crítica de costumes, até. Ambos os grupos têm certo grau de razão, e demostram de forma bem clara que a melhor maneira de limitar o entendimento sobre algo – e de trilhar o quase irrecorrível caminho da burrice – é a busca de definições estáticas que lançam fatwas contra aqueles que se opõem.

O livro, estruturalmente, é peculiar tanto para padrões gerais do Romance Russo quanto para padrões de Dostoiévski. Tem capítulos curtos, que alternam páginas de introspecção – por vezes obscuras – e leves digressões do personagem principal com cenas de ação (para padrões literários, obviamente) quase teatralmente exageradas – a chegada da tia avó e sua ação subsequente no Cassino são incomuns na obra do escritor russo, mas a plasticidade das cenas descritas conjugada com os diálogos rispidamente montados não deixam o leitor esquecer-se de que há, ali, muito mais do que uma narrativa de entretenimento.

Narrativa amplamente linear, ma non troppo, dá-se em ritmo acelerado, com personagens de desenvolvimento mais superficial do que o normalmente esperado de romances russos, talvez em função da brevidade do texto, por vezes classificado – duvidosamente – como uma novella – o que não deve ser interpretado como demérito ou crítica à obra, posto que em pouco mais de 200 páginas, o autor constrói uma narrativa que tem o condão de ser aprazível tanto àqueles que lerão o texto em nível meramente narrativo tanto quanto para aqueles que têm percepção mais aprofundada das características estruturais e formais da obra. Tal flexibilidade não é comum em Dostoiévski, não se repetindo em outras obras.

Há, também, certo engodo no título: embora a escolha do “jogador” seja indubitavelmente referência ao personagem principal, este participa de duas cenas em que o jogo é protagonista: a primeira, curta e de menor importância no início da obra, a segunda, frenética e energética, quase um delírio, ao final do livro.

Um romance panorâmico

É comum encontrar resumos, críticas e sínteses de “Um jogador” em que a definição do livro é centrada no vício ou no ato do jogo em si. Nada poderia estar mais longe da realidade ou reduzir tanto o alcance do livro quanto esse tipo de definição. A narrativa, embora ambientada e condicionada em grande parte pelo ambiente do cassino, tem alcance muito maior, restando ao jogo apenas papel de catalisador do comportamento de algumas personagens. Há uma miríade de leituras possíveis, com um rico e talvez sutil verniz irônico em relação ao painel social russo do século XIX, retratado cruamente por meio de personagens eivadas de defeitos e que sucumbem a fraquezas menores: cobiça, inveja, avareza, mesquinhez são muito mais evidentes do que o vício. As personagens representam a visão do autor sobre uma classe social materialmente superior, porém indolente e pouco refinada, visão essa cáustica e impiedosa, e que não cai na falácia vazia da dicotomização da luta de classes. Porém essa é apenas uma das leituras visíveis do romance. Igualmente válida, e complementar à visão “classe ociosa e vã”, é a abordagem sobre o relacionamento entre as personagens principais. Um estudo de caráter divertido e até mesmo sarcástico, em cujo desenrolar não faltam cenas memoráveis como a da aposta entre dois personagens em relação à abordagem a determinado conde alemão, que gera desconforto e empresta um certo ar farsesco ao já amplamente rico romance.

Também conta com características autobiográficas, uma vez que é famosa a querela pessoal do autor com a roleta, o que lhe custou muito de seu bem estar psicológico e financeiro ao longo dos anos. Curiosamente, contudo, o narrador principal não se envolve diretamente em cenas de jogo, exceto em dois momentos chave, sendo o ambiente proporcionado pelo jogo – o Cassino, a Roleta, as Emoções – o catalizador para que o autor destrinche relações pessoais e a complexidade da natureza humana com a costumeira força e clareza. Dito de outra forma, a escolha do ambiente lúdico é essencial para o desenvolvimento dos personagens, mas não trata em nenhum momento apenas de um jogador.

Porta de entrada

A literatura russa é afamada em meios acadêmicos e não acadêmicos como grande precursora de técnicas e tendências que inovariam e revolucionariam a literatura no século seguinte. De fato, o uso da análise intensa psicológica de personagens e a importação de temas como o niilismo que eram comuns ao tecido social europeu e russo para dentro de obras como Pais e Filhos de Turgueniev ou Os Demônios de Dostoiévski abrem portas e tornam os livros vetores múltiplos na disseminação crítica de ideias, nos casos citados com críticas pesadas ao niilismo e seu efeito corrosivo na sociedade como um todo.

Contudo, a literatura russa pode ser problemática. Além da excessiva – e pedante – fama que tem – quem não tem um amigo ou amiga de Humanas que nunca pronunciou algo do tipo “Ah, os russos” e variações, sendo certo que 97,3% de quem as pronuncia não leu nada? – as obras podem ser – e geralmente o são – difíceis, pesadas e complexas.

Difíceis pois geralmente têm uma miríade de personagens e histórias paralelas, todas entrelaçadas, o que pode por vezes confundir e cansar até o mais atento leitor. Múltiplas vozes são ao mesmo tempo um grande achado e um grande desafio literário. Além disso, não há vergonha nenhuma em admitir que os patronímicos russos confundem um pouco, por vezes. Quem nunca voltou algumas páginas para se assegurar que aquele Alexander Alexandrovitch era de fato o mesmo do capítulo atual que atire a primeira pedra.

Em segundo lugar, geralmente são romances extensos, ultrapassando facilmente 400 páginas, o que dificulta o simples fato de carregar o livro, fisicamente falando. Não são leitura para ônibus ou metrô, a não ser em versões eletrônicas, e mesmo assim com ressalvas.

Em terceiro lugar, devido às complexidades inerentes a um país em que vivem um povo historicamente descompassado em relação à Europa, e uma elite que se pretendia francesa ao mesmo tempo em que havia no seio de uma classe média educada o gérmen de uma revolução que marcaria o futuro próximo não só do país mas da humanidade, há nas obras em geral todo um pano de fundo histórico cultural que não pode ser desprezado no processo de leitura. Obviamente tal argumento pode ser utilizado para qualquer obra, a qualquer tempo, mas as peculiaridades citadas tornam o período russo mais sensível, e, por consequência, afetam o leitor. A Rússia que produziu Chekov, Turgueniev, Tolstoi, Puchkin, Gogol e Dostoiévski é historicamente um emaranhado de épocas, tendências e conflitos, a qual a extensão territorial e multiplicidade étnica do país adiciona uma camada de complexidade.

Eis, então, a grande vantagem de Um Jogador: embora concebido em meio a esse turbilhão social – e pessoal do autor, como visto anteriormente – o livro não possui nenhuma das características citadas anteriormente em grau elevado, que pesem ou mesmo obstem o processo de leitura. É de ritmo relativamente leve, curto e acessível, sem que seja uma obra meramente mercadológica (o que seria talvez de se esperar, posto que foi escrito sob a pressão de dívidas vencidas do autor). Trata-se de romance que pode servir de teste de entrada para o leitor que deseje conhecer a literatura russa, e, principalmente, travar conhecimento com aquelas características que a tornam tão peculiar, afamada e única.

Para quem serve?

Como já dito, o livro pode servir a qualquer um que goste de uma boa narrativa, e será melhor apreciado por leitores que saibam o que esperar da obra, ou seja, que tenham relativo conhecimento do contexto histórico-cultural do período em que foi concebido. Leitores que gostem de personagens fortes, quase farsescos, também se sentirão realizados, principalmente com a figura da Generala, e aqueles que sintam que obras devam ter algum tipo de “engajamento” também terão sua dose de satisfação ao ver acidamente criticadas as relações sociais que cercam a rica idosa e sua entourage.

Para quem não serve?

O livro tem poucas partes que possam custar ao leitor mais impaciente: há relativamente poucos momentos de longos períodos digressivos, o número de personagens é pequeno, para padrões russos, e os diálogos são claros, embora nem sempre sejam diretos. Também a extensão da obra é amigável com os impacientes, assim como o ritmo narrativo. Portanto, a não ser em casos de leitores com extrema falta de paciência, a obra deverá ser de razoável facilidade de leitura.

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