Tirza – Arnon Grunberg

A.Grunberg_Tirza

Tempos estranhos geram romances estranhos. Tempos neuróticos geram algo como Tirza, romance mais recente de Arnon Grunberg, escritor holandês cuja obra começa a receber atenção no Brasil.

Tirza é um romance neurastênico. Talvez guarde semelhanças nesse sentido com a Consciência de Zeno, do imortal Italo Svevo, livro este que se aproxima de seus cem anos sem que encontre paralelo exato na literatura. Porém, em contraposição à obra prima de Svevo, que tem seu epicentro no imortal personagem que lhe empresta o título, Tirza vai um pouco além.

O enredo de Tirza, ao ser descrito sumariamente não poderia ser mais simples, sonolentamente simples: trata da relação de um pai holandês de classe média, nos estertores iniciais – e, ao longo da narrativa nota-se que plenamente justificáveis – de uma crise de meia idade, que conjuga, de forma cruel embora assustadoramente plausível, os aspectos existencial, profissional e matrimonial. Entretanto, cada aspecto da crise multifacetada acaba por ser peça de um intrincado quebra cabeças que ao final do livro se mostra muito maior do que a figura inicialmente proposta. (E é essa a razão que o torna grande, retroativamente. Tirza é um romance de duas leituras, no mínimo).

A escrita de Grunberg pode ser um tanto quanto bipolar ou paradoxal, estruturalmente: lenta, porém bastante corrediça, sendo os capítulos repletos de cenas relativamente bem detalhadas sem que se caia jamais no preciosismo detalhista que se sobrepoe ao ato de narrar e sem que apele à praga do “dialogismo” que tornaria cenas meras trocas verbais entre personagens. Os diálogos de “Tirza” são sempre necessários, muitas vezes sumariamente econômicos, o que contribui para o clima crescente de expectativa e certamente aumenta a tensão no leitor. Mesmo em momentos em que os diálogos se tornam estranhamente improváveis, não perdem sua verossimilhança, sua razão de ser.

Muito embora o autor holandês não abuse da análise psicológica e da introspecção, ambas estão presentes em larga medida ao longo do texto, e delimitam as personagens que circundam Hofmeester, e que ao longo da trama ganham relevância no crescendo que culmina no final tão apocalíptico quanto inesperado que se desenha. Destaca-se a estranha figura da ex-esposa (definição incorreta e progressivamente nebulosa cuja incorreção só se descobre ao finalizar o livro) que em um lusco-fusco cada vez mais presente ocupa gradualmente lugar na trama.

Curiosamente Tirza, embora busque seu título no nome da filha mais jovem de Hofmeester, tem no pai a figura central, embora a escolha do título não fique clara até às últimas páginas. A banalidade de sua vida de classe média alta holandesa fica evidenciada pela sequência de fatos que se desvelam ao longo da trama: abandonado por uma esposa que simplesmente um dia deixa a casa sem maiores explicações, convidado a se ausentar (de forma remunerada) de um trabalho com o qual nunca foi particularmente identificado ou em que tenha sido competente, embora isso não o tenha impedido de alcançar cargo de prestígio e consequentemente boa remuneração, agarra-se à criação da filha mais nova – Tirza – com todo o afinco e esmero que um pai perfeitamente liberal e moderno (afinal, holandês) pode se agarrar. Tirza é seu último ponto de contato com uma mundo ideal cuja existência pouco a pouco e pedaço a pedaço se desintegra a sua frente. Ser pai, descobre-se ao longo da trama, é o último refúgio real na vida do protagonista, e seu amor por Tirza tem contornos estranhamente dúbios, de que, inicialmente, o leitor pode ter vergonha de pôr em dúvida, devido à grande simpatia que o pai de Tirza invariavelmente desperta em grande parte dos leitores.

A Festa

Tirza irá se graduar. Tirza partirá, em seguida, em uma viagem pela África com seu namorado marroquino (que se parece, estranhamente, com um famoso terrorista, pensa Hofmeester) com a finalidade de se afastar momentaneamente da sociedade hermética e perfeita em que sempre viveu. Seu pai, em sua infindável missão de busca pelo ideal de perfeição paternal, decide marcar tal momento de passagem com uma festa em que todos os amigos de Tirza estarão presentes. Com a paciência fria que lhe caracteriza, e com a estranha meticulosidade que acompanha seus atos (seja uma ida ao banco, seja no preparo de sardinhas fritas), Hofmeester planeja a festa perfeita, em que haverá álcool em quantidade suficiente e em que ele será figura presente, eficiente e praticamente invisível. Na verdade, o evento acontece após um crescendo que leva cerca de 250 páginas, após as quais o leitor já saberá o bastante de Hofmeester para se surpreender com os fatos que se seguirão no desenrolar da festa. Aliás, as páginas que precedem o momento – que, afinal, trata-se do fim do último capítulo minimamente racional da vida de Jörgen – têm função quase anestésica: o leitor desarma-se e aguarda sem a devida expectativa o que virá (a não ser que tenha lido anteriormente algum tipo de informação sobre o livro). Tal relaxamento do senso crítico, por assim dizer, tornam os fatos que se seguem à festa ainda mais relevantes, e jogam outra luz, dessa vez dúbia, incerta e levemente duvidosa, sobre o comportamento do pai perfeito. Eis, então, a grande qualidade do livro (que, lembremos, ainda está em sua metade): a criação de uma tensão até então muito mais intuída do que notada, que tornará Hofmeester invariavelmente caso singular ou arquétipo, a depender das simpatias, empatias, ódios e amores do leitor.

Na referida festa, uma série de eventos inesperados e psicologicamente densos, começam a desvelar a figura do pai, e a mostrar – de forma um tanto quanto ácida e sarcástica – quão não hermética é a vida de Jörgen (com ö).

O que esperar e quem deve ler?

Como já dito, Tirza é um livro relativamente longo, e de ritmo incerto e titubeante, considerados o estado psicológico das personagens e o clima narrativo, tais características não chegam a ser um defeito. A descrição e construção dos personagens é feita em banho-maria, e isso poderá ser um empecilho ao leitor mais impaciente ou mais interessado em ações. Por outro lado, dentro do emaranhado psicológico, há uma série de episódios quase farcescos que jogam alguns pontos de luz na trama e que podem prender a atenção do leitor e servir de ponte para o longo epílogo que se desenha após a festa e que irá cair sobre cada leitor como uma bomba, com o perdão da utilização da expressão previsível.

Serve como alerta ao leitor o fato de para muitos ser este um livro perturbador, a depender da entrega do leitor à obra porém independentemente de sua mundivisão. A relação entre Jörgen e a filha é humana, demasiadamente humana, e certamente incomodou muitos leitores. Sua relação com a estranha esposa é bizarra, no mínimo, doentia, no limite. Sua filha mais velha é uma personagem plana, em contraposição à caçula Tirza. Hofmeester por vezes flerta com a loucura. Mesmo o leitor mais desatento irá ver uma verbalização ou outra de tal possibilidade por algum personagem ao longo da narrativa. Dizer mais do que isso seria estragar a experiência de passar por uma leitura tão desafiadora e de ter o prazer de se admirar, surpreender ou talvez odiar um personagem que se sabe fictício, mas com quem é impossível não se ligar ao longo das quase 500 páginas.

Ressalte-se, contudo, que o “perturbador” utilizado acima advém de um crescendo psicológico, de situações que pouco a pouco vão sendo vistas com novos matizes e ganham novas interpretações; a partir de situações futuras o passado é revisto obrigatoriamente, sendo o julgamento final do leitor.

Como já dito, trata-se de um livro neurótico. Talvez irônico, sem dúvida incômodo (principalmente ao final) mas em nenhum momento ofensivo. Perturba mas não ofende, inquieta mais do que choca.

A segunda leitura

A segunda leitura é opcional, obviamente. O livro conclui-se de forma surpreendente, e não há dúvidas sobre o desfecho, que atinge o leitor, mesmo o mais atento, como um golpe no peito. Contudo, a segunda leitura é capaz de dar nova vida aos diálogos e pensamentos aparentemente anódinos da primeira parte, e tornam o acompanhamento da vida de Hofmeester mais claro e interessante, embora menos surpeendente. Curiosamente, a empatia pelo personagem pode crescer a partir de uma segunda leitura, mesmo surgir naqueles leitores refratários à figura ideal do pai de classe média holandesa que aparece inicialmente.

Trata-se de simpatia análoga àquela que pode surgir por personagens como Mersault, d’O Estrangeiro. Sendo a grande diferença entre os personagens a de que Hofmeester tentou tudo e falhou, enquanto o argelino falha miseravelmente de forma quase inercial.

Por fim, não ache o leitor que a comparação acima indique ser Tirza um livro talvez existencialista: não. A chave, talvez, esteja em Tolstói (de quem Hofmeester tanto gosta e a quem tanto admira), afinal, todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Os Hofmeester certamente colaboram para a veracidade dessas imortais palavras iniciais.

  • Título original: Tirza
  • Editora: Rádio Londres
  • Número de páginas: 460
  • Ano de publicação: 2006
  • Ano de publicação no Brasil: 2015

Tirza

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