Os Ratos – Dyonelio Machado

20150911-os-ratos

Os Ratos, de Dyonelio Machado figura um tanto quanto à margem da literatura brasileira. Muito embora seja contemporâneo de inúmeros autores que compõem o cânone da literatura brasileira do século XX, não conta, talvez, com um décimo da fama de seus pares ou da dedicação dos acadêmicos da área. Aqui e ali é possível encontrar comentários sobre o autor, quase sempre carregando certo viés crítico, em que se menciona uma certa irregularidade na “qualidade” da sua obra. Grande bobagem: autores magnânimos de nossa literatura têm essa mesma característica – Lima Barreto é o caso mais enfático – e outros sequer passaram de uma obra – como Augusto dos Anjos e seu monumental Eu.

O livro

A primeira grande característica a saltar os olhos de quem pega os Ratos é a prosa de Dyonelio. Um tanto quanto pitoresca, sua prosa tem fraseado peculiar, talvez influenciado pelo dialeto porto-alegrense; há uma certa sensação de se estar lendo algo próximo ao português, mas nem tanto. Não se trata de crítica ou empecilho, contudo. O pitoresco logo torna-se agradável, e o ritmo de leitura recupera-se logo. O fenômeno talvez se assemelhe ao ajuste da visão ao se passar de um quarto mal iluminado a uma sala em plena luz: alguns segundos são necessários para que seja possível diferenciar os contornos e formas.

Também o ritmo da escrita é incomum na literatura brasileira: rápido, de períodos curtos, sem refinamentos desnecessários e por isso mesmo de uma elegância sem paralelo. Aproxima-se dos melhores momentos de Graciliano Ramos na rapidez e objetividade, mas sem a esterilidade objetiva deste. O ritmo da escrita também se reflete na construção do livro, que tem 28 capítulos relativamente curtos, distribuídos por um pouco mais de 200 páginas. Mais uma vez invocando Graciliano, como quem o autor compartilha características extra-literárias, como a perseguição política e imprisionamento, a narrativa de Os Ratos tem, em sua objetividade e ritmo quase telegráficos, grande afinidade com os momentos mais impactantes de Angústia.

Narrativa que se desenrola em 24 horas, tem como mote o ultimato de cobrança de um leiteiro ao personagem principal, Naziazeno Barbosa, funcionário público de baixo escalão, empregado em algum departamento não nominado em algum órgão burocrático apenas obliquamente mencionado . Segue-se a partir do fato, ocorrido nas primeiras horas da manhã, e acompanhado pela esposa e pelos vizinhos mudos, verdadeira odisseia de um homem médio em busca da solução para o problema relativamente trivial que se lhe apresenta: conseguir 53 mil réis e salvar um pouco da honra e dignidade que lhe restam, mesmo que por um dia.

O ritmo narrativo segue as angústias e dúvidas de Naziazeno, em sua busca dos 53 mil réis de que precisa para saldar seu compromisso financeiro. Ainda em casa pela manhã, desenrola-se um diálogo friamente cruel entre o protagonista e sua esposa – que fala mais alto e profundamente por justamente não proferir palavra durante a altercação -, em que a própria necessidade do fornecimento diário de leite é posta em questão, e uma breve regressão à infância de carestia do narrador se segue, em uma cena que faz lembrar em muitos aspectos alguns dos diálogos mais brutais dos Irmãos Karamázov de Dostoiévski.

O dia segue o personagem em sua curta viagem até o trabalho, em que observa transeuntes e companheiros de bonde, entreouvindo-lhes as conversas. Em sua perambulação ao trabalho, premido por pensamentos ligados à premente necessidade, o personagem traça planos, e planeja solicitar empréstimo ao seu superior hierárquico, que já lhe havia prestado auxílio em ocasião diversa. A narração segue as projeções mentais do personagem sobre a abordagem ao Diretor, em suas possíveis interações e respostas, até o segundo episódio de humilhação pública, desenhado pelo autor com precisão psicológica cirúrgica.

A narrativa segue em uma série de desventuras em uma cidade seca e impessoal, povoada por personagens não muito diferentes do protagonista em suas rotinas que não carregam preocupações muito mais profundas do que a subsistência e o quotidiano comezinhos. Destaca-se a longa cena na roleta, construída de forma quase sufocante pelo autor, que vê o protagonista sucumbir mais uma vez a suas próprias fraquezas, mesmo após ganhar mais de três vezes o que precisava para saldar a dívida.

O desfecho da história torna-se inesperado dada a relativa positividade do desenlace, que vê o personagem apto a saldar suas dívidas, ao mesmo tempo em que simbolicamente traz para casa um pé de sapato da esposa, há tempos esquecido em um sapateiro por falta de dinheiro para pagar o conserto solicitado, e pelo luxo fugaz, e por que não descabido, que se permite Naziazeno, ao comprar queijo holandês e vinho para o jantar e brinquedos para o filho.

A Leitura

A leitura é corrediça, seguindo cadência acelerada, mesmo que frequentemente marcada pelas reflexões do personagens ou observações psicológicas do autor, que mostra-se presente também de forma curiosa em seu uso das aspas frequentes na correção do pensamento do personagem.

A prosa de Machado, como já observado, é curta e objetiva, sem floreios, embora possa apresentar alguma dificuldade momentânea ao leitor inicialmente devido à distância temporal e geográfica, algo natural em um livro lançado há mais de 80 anos.

Embora a obra seja rica na análise psicológica meticulosa das personagens, tal análise em nenhum momento se descola da fluidez do texto, dando ao livro uma dinamicidade incomum em romances do gênero. Não são comuns longos parágrafos ou mesmo capítulos extensos, 28 ao total. Sendo todo o enredo distribuído em menos de 24 horas, as cerca de duzentas páginas do romance passam voando pelas mãos do leitor, que em um crescendo quase teatral vê no final relativamente positivo quase um anticlímax à tragédia que se desenhava.

Há muito o que se comparar com Graciliano Ramos de Angústia, tanto nos aspectos estéticos quanto na própria escolha de personagens densas, colocadas em um ambiente opressor e que as sufoca psicologicamente. É comum que se encontre algum tipo de tentativa de paralelo entre as obras, até. Mas há diferenças marcantes: Graciliano em Angústia abusa de longos períodos quase delirantes (o fantástico desfecho do romance ilustra essa característica), além das cenas noturnas e soturnas. Dyonelio em os Ratos se mostra mais situacional e observacional, com análises mais fugidias e por vezes de difícil percepção em uma primeira leitura. O fato de conseguir montar um livro psicologicamente denso e tenso aliando economia de palavras com objetividade é testemunho da grandeza do autor.

Devaneios

Ponto presente ao longo de toda a narrativa, o devaneio e a projeção de imagens sobre a realidade são pontos comuns que se tensionam e destensionam em momentos alternados, em que Naziazeno chega quase à anomia. A tensão e devaneio chegam ao ápice no capítulo final, em que realidade fática e onírica se misturam, causando inclusive devaneios auditivos em Naziazeno, que crê ouvir ratos roendo as notas deixadas para pagamento ao leiteiro. Mais uma vez, a cena final mostra extraordinária semelhança estrutural com o devaneio febril de Raskolnikov após cometer o duplo assassinato em Crime e Castigo.

Também o constante ruminar do personagens, a todo momento cercado pelos próprios pensamentos aos quais dá voz o narrador onisciente é destaque na obra. Ao utilizar tal recurso, Dyonelio dá a situações corriqueiras e banais o tom de dramaticidade e profundeza psicológica que tornam o livro algo tão único na Literatura Brasileira.

Sobre esse último ponto outra grande qualidade que emana do autor: o livro tem forte crítica social sem cair em momento algum na panfletagem política barata mal disfarçada de arte. Nada de engajamento, nada de discursos sociais ou lições morais travestidas em arte. Dyonelio sublimou sua visão de mundo – certamente formadora de e formada por sua posição política, afinal era comunista de carteirinha, literalmente – sem contaminar o livro. Ou seja, teve a grandeza de deixar o artista longe do homem político, algo cada vez mais raro no atual cenário artístico de penumbra brasileiro.

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