Ordem Mundial: Henry Kissinger

A Ordem Mundial – Henry Kissinger

livro

  • Título: A Ordem Mundial (World Order)
  • Autor: Henry Kissinger
  • Editora: Objetiva
  • Tradução: Cláudio Figueiredo
  • Páginas: 428
  • Link site editora: Aqui

Kissinger dispensa qualquer tipo de apresentação. Sua participação na política americana nos últimos 50 anos é potencialmente mais relevante do que a História, com a sua inevitável presença e relativa miopia, ainda registrou. Um intelectual de formação acadêmica sólida (infelizmente essa não é uma redundância), com formação humanística ampla e um profundo entendimento (muito mais importante do que o conhecimento sobre, o que também detém) da História aliado a um senso prático – talvez pragmático seja um termo reducionista nesse caso – da máquina burocrática estatal e das relações internacionais incomuns, foi ator – e autor – dos principais momentos históricos da política mundial da segunda metade do século passado.

Ordem Mundial é um livro que flerta com a História, aqui, claro, filtrada pela ótica dual (realista e, por vezes, levemente idealista) do autor. Começa com a apresentação do conceito de Ordem Mundial a partir da admissão de que o conceito de ordem jamais foi consensual (e muitas vezes caminha no livro para assumir que jamais o será), marcando o início de discussões sobre o assunto com a chamada Paz de Vestfália, oriunda de um concerto de nações já exaustas pelas seguidas guerras que assolaram o continente europeu no século XVII, que, ao buscarem uma solução prática que atacasse ao mesmo tempo a causa dos conflitos e garantissem estabilidade no plano europeu, criaram um sistema de ideias e ações práticas que acabariam por se mostrar fundamentais (em conjunto com a ascensão da filosofia política ligada à atuação geograficamente limitada) para a criação do conceito de Estado tal como o entendemos atualmente.

Conceitos políticos hoje tidos como basilares surgiram dos inúmeros encontros e reuniões que convencionalmente se chamam a Paz de Vestfália: Soberania estatal, liberdade para decisão de elementos da estrutura interna e uma relativa liberdade religiosa (na verdade garantia de não conversão forçada) passaram a integrar o ideário político a partir de então.

No plano comparativo geopolítico e histórico, Kissinger contrapõe a pluralidade de ordens que coexistiam na Europa pós Império Romano, fragmentada e multifacetada, à ordem estabelecida na China e no Islã, em que as lutas pelo poder se davam em função da busca do controle de uma ordem já estabelecida. A ideia lançada pelo autor é singular pois mostra-se útil no entendimento da base dos conflitos geopolíticos travados atualmente, em que atores que têm valores estabelecidos e sancionados por eles mesmos tentam e esperam que atores que não participaram da elaboração das tais regras participem do plano político respeitando-as. Os recentes exemplos de rusgas entre o Ocidente e Irã, e mais recentemente com a Coreia do Norte, devem ser observados sob esse prisma. O argumento do autor é simples e preciso, sem, contudo, cair no relativismo: em nenhum momento Kissinger (como a história de sua atuação política mostra) dá mostras de que desafiantes da ordem estabelecida – tida como a ideal e baseada amplamente em valores republicanos e democráticos – devem ser tratados com leniência ou com relativização. Kissinger, inclusive, levanta questões relevantes sobre como lidar com uma ordem internacional em que desafiantes, ao ultrapassarem os limites, não sofrem as devidas sanções, o que, segundo o autor, enfraquece sobremaneira a validade da ordem sistêmica estabelecida a medida em que cria incentivos perversos que levarão, futuramente, a transgressões cada vez mais frequentes e graves.

Nesse sentido, o capítulo 3 “O islamismo e o Oriente Médio: um mundo em desordem” se faz fundamental na estrutura do livro, já que se interpõe entre os capítulos que discorrem sobre a criação da Ordem Mundial baseada nos valores vestefalianos e os atritos e rupturas causados pela não aceitação desses valores por nações com históricos culturais e sociais totalmente diversos daqueles das nações ocidentais. O capítulo também aborda o espinhoso tema do posicionamento fundamentalista islâmico – que permeia quase a totalidade dos países de fé maometana – sobre a impossibilidade de existência pacífica do Islã com nações que professem outra (ou nenhuma fé), a não ser por acordos estratégicos e de duração definida e limitada. Esse fundamentalismo, argumenta o autor com verve e extensão, não mudou em sua essência nos últimos séculos (houve o enfraquecimento do imperialismo muçulmano, devido a fatores como dissenções internas e relativo enfraquecimento econômico, o que parece estar mudando), e a questão da coexistência com participantes relevantes do cenário internacional que têm em si o gérmen do autoritarismo – inflamado pela retórica dominante religiosa – e para quem a democracia e os valores vestefalianos não dizem nada , é a maior questão a ser enfrentada no século atual. As relações entre os países não podem se dar em bases multiculturalistas quando apenas um dos lados envolvidos tem esse valor como dado.

A narrativa de Kissinger é eruditamente simples, e segue uma ordem cronológica no campo das ideias, o que torna o livro acessível mesmo àqueles não necessariamente ligados à área de Relações Internacionais e Ciência Política.

Sumário:

  • Indicado para: Em geral, para interessados em História, Política e talvez Economia; estudantes de Ciência Política e RI em particular.
  • Pontos fortes: Texto conciso, mas pleno em referências históricas e factuais. A Introdução e os dois capítulos iniciais, além do capítulo final sobre a influência da comunicação de massa sobre a formulação e implementação e políticas, são particularmente interessantes.
  • Pontos fracos: Requer relativo conhecimento de História para uma boa compreensão dos conceitos e associações que o autor lança, o que pode tornar a leitura cansativa e inócua para o leitor que não tenha bom conhecimento dos processos históricos. Também a posição de Kissinger em relação à Política Externa americana, notadamente no pós Segunda Guerra, Guerra Fria e no Pós Guerra Fria pode irritar o leitor acadêmico – ou não acadêmico – mais à esquerda no espectro político, principalmente pela constante peroração dos valores americanos que acompanham o livro de sua metade até o final . Contudo, o que se poderia esperar de Kissinger?
  • Nível de dificuldade da leitura: Médio

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