Criação: Gore Vidal

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Criação não é, de fato, um livro classificável, e aqui inicia-se apenas a primeira de uma longa lista de peculiaridades que tornam a obra sui generis. Trata-se de um romance lento, de narração relativamente não linear, e que se debruça sobre uma miríade de caminhos que marcham lentamente história (ou História) adentro. A prosa de Vidal, também ela, segue o estilo do romance, ou o molda, em uma relação de simbiose criativa que poucos autores conseguem domar. Ela – a prosa – é polida, leve, elegante e fluida, e a leitura se desenvolve como o tempo que passa em uma longa viagem de trem em que se vê rodeado de belíssimas paisagens, de certa forma o belo e a plasticidade fazem a percepção do tempo relativizar-se de forma onírica. Neste ponto, a tradução de Newton Goldman é essencial. Mantém a beleza marmórea do original, sem entrar no caminho do autor, algo louvável em obras dessa natureza. O enredo, em termos de linhas narrativas e histórias que se sobreponham, é simples: narra a vida de Ciro Espítama, já cego e idoso, exercendo a perigosa função de embaixador persa em Atenas. Uma longa regressão, que vai de sua infância de origens híbridas, passando pela juventude – em que começa a abnegar a já não muito forte fé em nome de uma carreira diplomática -, suas funções diplomáticas em viagens pela Índia e China até sua posição final em Atenas, como já mencionado. Ciro tem a peculiaridade de, além de ser neto do grande Zoroastro, ter presenciado sua morte, o que lhe empresta ares solenes e uma aura de autoridade religiosa branca, o que mais de uma vez usa em benefício próprio, nem sempre por motivos louváveis. A sua origem também lhe garante certa preeminência diante dos grandes mandatários persas, o que dá impulso à sua carreira diplomática. A parte do fato de a narrativa ser, por si só, interessantíssima tema abordado – história persa, algo solidamente esquecido nos bancos escolares, sendo abordada a partir da perspectiva de mero acessório para o ensino da história grega – as observações do narrador sobre os gregos (atenienses em geral) são carregadas de ironia e certo desprezo aristocrático, dada a posição inferior – culturalmente – daquele povo em relação aos grandes persas, o que empresta à narrativa um sabor especial e uma peculiaridade, ao mudar o foco narrativo tradicional, que geralmente conta a História a partir do ponto de vista helênico. A ironia fina, e por isso mesmo mais penetrante, já se mostra na abertura do livro, em que o velho Ciro, já com 75 anos, mostra seu descontentamento levemente amargo com a forma que se conta a História pelos gregos: “I am blind. But I am not deaf. Because of the incompleteness of my misfortune, I was obliged yesterday to listen for nearly six hours to a self-styled historian whose account of what the Athenians like to call ‘the Persian Wars’ was nonsense of a sort that were I less old and more privileged, I would have risen in my seat at the Odeon and scandalized all Athens by answering him.” O livro é um mergulho no passado. Embora a expressão seja um tremendo lugar comum, não há nenhuma outra que defina melhor a sensação nítida de visitar um mundo que não existe mais, tanto no sentido material quanto no sentido mais amplo da Gestalt do tempo passado, morto e esquecido (paradoxalmente revivido pela ficção), com os inevitáveis choques culturais e intrigas internas sempre presentes, sempre, também, observados pelo viés humano e pragmático do narrador/autor. Contudo, há de ficar claro que Criação não é um livro fácil (qual o é?). A narrativa segue as percepções do autor/narrador – pontuadas por admoestações e perguntas não verbalizadas do sempre presente Demócrito, sobrinho ouvinte do narrador – o que pode render longos períodos de digressões comparativas entre os costumes de determinado povo, ou de uma viagem desconfortável, por exemplo. É uma obra estética, antes de tudo. O estilo do autor gera invariavelmente impressões pictóricas, dada a plasticidade quase tangível de sua prosa. É um livro longo, o que um livro sobre uma longa vida – e bem vivida – deve ser, e ser longo aqui não significa somente o número de páginas do volume, é um livro de longo alcance, que pode agradar aqueles que leem por amor à estética, ou aqueles que o leem pela boa história, pelo amor à narrativa. É, sobretudo, uma obra densa, sem, contudo, que se torne jamais enfadonha. Criação é universal, e merece melhor lugar no panteão das grandes obras que por algum motivo não passam a pertencer ao cânone.

A Narrativa

A narrativa traz como característica especial uma peculiaridade histórica: muda o foco narrativo tradicional, que geralmente conta a História a partir do ponto de vista helênico. A ironia fina, e por isso mesmo mais penetrante, já se mostra na abertura do livro, em que o velho Ciro, já com 75 anos, mostra seu descontentamento levemente amargo com a forma que se conta a História pelos gregos:

“I am blind. But I am not deaf. Because of the incompleteness of my misfortune, I was obliged yesterday to listen for nearly six hours to a self-styled historian whose account of what the Athenians like to call ‘the Persian Wars’ was nonsense of a sort that were I less old and more privileged, I would have risen in my seat at the Odeon and scandalized all Athens by answering him.”

O livro é um mergulho no passado. Embora a expressão seja um tremendo lugar comum, não há nenhuma outra que defina melhor a sensação nítida de visitar um mundo que não existe mais, tanto no sentido material quanto no sentido mais amplo da Gestalt do tempo passado, morto e esquecido (paradoxalmente revivido pela ficção), com os inevitáveis choques culturais e intrigas internas sempre presentes, sempre, também, observados pelo viés humano e pragmático do narrador/autor.

Contudo, há de ficar claro que Criação não é um livro fácil (qual o é?). A narrativa segue as percepções do autor/narrador – pontuadas por admoestações e perguntas não verbalizadas do sempre presente Demócrito, sobrinho ouvinte do narrador – o que pode render longos períodos de digressões comparativas entre os costumes de determinado povo, ou de uma viagem desconfortável, por exemplo. É uma obra estética, antes de tudo. O estilo do autor gera invariavelmente impressões pictóricas, dada a plasticidade quase tangível de sua prosa. É um livro longo, o que um livro sobre uma longa vida – e bem vivida – deve ser, e ser longo aqui não significa somente o número de páginas do volume, é um livro de longo alcance, que pode agradar aqueles que leem por amor à estética, ou aqueles que o leem pela boa história, pelo amor à narrativa. É, sobretudo, uma obra densa, sem, contudo, que se torne jamais enfadonha. Criação é universal, e merece melhor lugar no panteão das grandes obras.

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