Uma Breve História do Progresso – Ronald Wright

 

Ronald Wright, apesar de possuir obra relativamente extensa, não faz parte da constelação de escritores com tendências historiográficas mundialmente famosos, embora sua obra sobre os Maias tenha algum eco no meio acadêmico anglo-saxão, assim como as conferências que deram origem ao livro, o autor pode ser classificado como de fama regional,

Com formação acadêmica em Arqueologia, Wright é uma figura popular no Canadá, tendo sido catapultado para fama pela publicação do livro, que coincide com sua série de apresentações sobre o tema na CBC – emissora de rádio de alcance nacional.

O livro tem como proposta apresentar a história civilizacional de forma condensada, porém incisiva, ao grande público, o que se encaixa na premissa maior e mais pretensiosa da obra: a que afirma que sociedades perecem em função de seu sucesso, em um estranho processo de auto-destruição alimentado pela fé cega na manutenção de processos que, ao mesmo tempo em que são responsáveis pelo desenvolvimento tecnológico, são responsáveis pela exaustão de recursos e, em última instância, da coesão social.

Para apresentar sua tese, Wright divide a obra em 5 capítulos, em que são apresentados panoramas distintos de cada civilização analisada. Os capítulos são curtos, porém fartos em referências e notas, que enriquecem o texto embora trunquem a leitura. De forma geral, pode-se afirmar que o livro é uma versão reduzida – e um pouco mais carregada ideologicamente – do que Colapso, de Jared Diamond, ao qual é frequentemente comparado, tanto pelo escopo da análise quanto pela conclusão pessimista. (Há diferenças relevantes entre os autores, contudo. Trata-se de comparação superficial, embora não despropositada).

Monocórdico, mas eficaz

Uma vez apresentada a tese, o mote repete-se ao longo dos capítulos subsequentes, ao longo dos quais o autor destrincha a história suméria e maia, por exemplo, em busca da narrativa que suporte sua tese inicial. De fato, é inegável a habilidade do autor na construção textual; a qualidade de sua prosa contribui para a fluidez do livro, que torna a leitura estranhamente agradável, considerado o fatalismo do tema como é proposto.

Não se deve confundir, contudo, a repetição do mote com redação monótona. O autor é capaz, ao longo dos capítulos, de intercalar fatos e observações próprias – obviamente ligadas a sua agenda – de maneira a manter a leitura fluente, sem que se torne monótona em momento algum. Para o leitor comum – não acadêmico – as descrições das características de organização social dos Neanderthais e dos Cro-Magnon são surpreendentemente interessantes, e o autor não se furta a citar fontes e obras que podem ser consultadas pelo leitor que queria se aprofundar ou buscar fontes alternativas para leitura.

Para o leitor desconfiado, que busca sempre as manchas de uma tintura de orientação política qualquer na formação dos autores, há um certo desafio: ao longo do texto fica difícil apontar o posicionamento ideológico do autor, uma vez que seu tom vai do estoicismo ao idealismo com tons marxistas (devidamente desmentido cerca de dois parágrafos à frente, no meio do capítulo 4). Nota-se, porém, algum messianismo ambientalista em algumas passagens, sem que isso se transforme, de forma alguma, em empecilho para a leitura. Pode-se propor que as semelhanças com o discurso ambientalista hegemonicamente associado às posições mais à esquerda do espectro político são meramente circunstanciais, e, de fato, a visão relativamente negativa da natureza humana subjacente à tese proposta por Wright está mais alinhada a autores como Hobbes do que a reformistas sociais de esquerda.

 

 

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